4# BRASIL 21.1.15

     4#1 ELES DISSERAM NO PARA DILMA
     4#2 O PT NO DIV
     4#3 ELE ESTREMECE O PLANALTO
     4#4 O LOTEAMENTO DE KTIA ABREU
     4#5 DEPUTADOS BLINDADOS
     4#6 TRINTA ANOS DEPOIS DE TANCREDO
     4#7 FRATURA EXPOSTA

4#1 ELES DISSERAM NO PARA DILMA
Conhea o Ministrio que a presidente quis montar, mas no conseguiu devido s negativas dos escolhidos, e entenda por que ser ministro do governo do PT no  mais to atrativo quanto antes 
Izabelle Torres (izabelle@istoe.com.br)

A EQUIPE QUE A PRESIDENTE QUERIA ESCALAR
 Luiza Trajano, dona do Magazine Luiza, Josu Gomes, da Coteminas, Abilio Diniz, presidente do conselho de administrao da BRF, senador Blairo Maggi e Luiz Trabuco, presidente do conselho do Bradesco

O loteamento de cargos de ministros carrega a imagem de uma disputada guerra entre partidos e autoridades interessadas nos mais altos cargos da Repblica. Essa impresso decorre do prestgio proporcionado por esses postos, das benesses inerentes s funes e da possibilidade de se dar um salto na carreira poltica com o uso da mquina pblica. Observando-se a distncia, parece impossvel resistir aos encantos do poder proporcionados aos ministros de Estado. Entretanto, as dificuldades enfrentadas pela presidente Dilma Rousseff na montagem de um Ministrio ao seu gosto e as negativas recebidas nas sondagens e nos convites mostram que as coisas no so bem assim. As vantagens de tornar-se ministro hoje so minimizadas pelos riscos de desgaste pessoal e profissional dos escolhidos e pela m fama do estilo de gesto centralizadora da presidente, que vem tornando esses cargos cada vez menos autnomos e atraentes.

NO DEU - O estilo centralizador da presidente Dilma Rousseff afugentou os candidatos aos cargos de primeiro escalo

No por acaso, o Ministrio montado por ela para o segundo mandato  uma colcha de retalhos que enfrenta desgaste j na largada do novo governo. No Planalto, no  segredo que nem mesmo Dilma Rousseff est satisfeita com a equipe formada. O desenho da distribuio dos cargos ficou bem diferente do que ela imaginara inicialmente para seu segundo mandato. A presidente insistiu na frmula de ceder ministrios a aliados seguindo o velho critrio do fisiologismo e da distribuio de poder em nome da governabilidade. Ao mesmo tempo, precisou digerir o fato de que alguns dos nomes que realmente pretendia atrair para sua equipe declinaram dos convites sem-cerimnias. O mais recente caso de negativa recebida pela presidente foi do seu piloto oficial, brigadeiro Joseli Camelo, que acumula 12 anos de servios aos presidentes da Repblica. Ele recebeu pessoalmente o convite de Dilma para se tornar ministro-chefe do gabinete de segurana institucional. Substituiria Jos Elito Siqueira, cujas relaes com a presidente so protocolares e marcadas por muitas reclamaes sobre sua atuao. Na funo, Joseli seria o responsvel pela segurana presidencial, ganharia um gabinete ao lado de Dilma e teria o comando da Agncia Brasileira de Inteligncia (Abin), o servio secreto do Brasil. A conversa aconteceu no dia 8 de janeiro, durante o voo de retorno a Braslia, depois de um breve recesso da presidente com sua famlia na Base Naval de Aratu, na Bahia. O brigadeiro declinou do convite e lembrou a presidente que seu maior projeto profissional era tornar-se ministro do Superior Tribunal Militar. Sobre a negativa, Camelo pouco comentou. Estou sendo indicado para o STM e serei sabatinado pelo Senado. Se os senadores aprovarem meu nome, serei um juiz, afirmou. Nos bastidores, entretanto, sua resistncia a integrar o primeiro escalo do governo foi creditada aos problemas enfrentados por Jos Elito e s presses que o ministro do GSI recebe diariamente, seja por falhas na segurana, seja por falta de recursos destinados a projetos e treinamentos dos funcionrios do gabinete. Joseli Camelo  conhecido por sua discrio e pela preferncia em manter-se distante de problemas e polmicas, comuns entre quem vive muito prximo ao poder.

RECUSAS -  O brigadeiro Joseli Camelo recebeu o convite  de Dilma parase tornar ministro-chefe do GSI. Mas os problemas enfrentados por Jos Elito o desencorajaram. 

O que afugenta o empresariado e os grandes executivos dos cargos governistas so as desvantagens inclusas no pacote do prestgio ministerial. Para assumir um ministrio  preciso afastar-se oficialmente do comando de empresas, mesmo que sejam os donos. Nesses casos, os empresrios no poderiam participar de conselhos ou associaes do setor privado. Ao assumir o cargo, as empresas que pertencem a eles ficam impedidas de fazer negcios com o governo. Uma perda nem sempre vantajosa para quem, alm dos salrios na rea privada, acumula milhes em lucros e pode transitar facilmente nos rgos pblicos. Isso sem contar com as presses polticas e com o fatiamento dos ministrios por partidos, que tentam nomear apadrinhados at nas pastas que no lhes cabe no fatiamento da mquina estatal.

Foi esse conjunto de restries que atrapalhou a realizao de outro desejo de Dilma na composio do ministrio. Ela contava com um empresrio de sucesso  frente do Ministrio do Desenvolvimento, Indstria e Comrcio. Pretendia dar  pasta um carter empresarial, numa tentativa de resgatar as relaes com os setores produtivos. Para isso, mandou seus ministros sondarem a disposio de Josu Gomes da Silva, filho caula do falecido ex-vice-presidente Jos Alencar, de integrar sua equipe. O presidente da Coteminas informou que no tinha interesse em afastar-se do seu grupo empresarial e recusou o convite para assumir a pasta ainda no ano passado.

RECUSAS - Aloizio Mercadante sondou Blairo Maggi para os Transportes, mas ele tambm declinou

Enquanto tentava desenhar o esboo de sua equipe para o segundo mandato, Dilma convidou o empresrio Ablio Diniz, ex-dono do Grupo Po de Acar e presidente do conselho de administrao da BRF, para o rgo. Foi a segunda tentativa de atra-lo, uma vez que em 2010 Dilma j havia mandado intermedirios para sond-lo. Diniz negou o convite alegando que contribuiria mais sendo um empresrio aliado. Mas, nos ltimos meses, as crticas feitas por ele ao governo foram interpretadas no Planalto como um sinal de que ele deixara de ser um entusiasta do governo Dilma. Mesmo assim, a presidente chegou novamente a cogitar seu nome em uma reunio em novembro do ano passado com os ministros da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e da Justia, Jos Eduardo Cardozo. Seria a sada para neutralizar opositores do setor privado e abrir um canal de dilogo do governo com o alto empresariado. Segundo assessores prximos a Dilma, ela teria ficado irritada com as declaraes dadas por ele em dezembro, criticando a medida provisria 627, que alterou a forma de tributao das companhias com produo no exterior. Diniz disse a empresrios que o governo estava atrapalhando o setor. Dilma desistiu de tentar atra-lo para o governo. Terminou entregando a pasta do Desenvolvimento ao senador Armando Monteiro (PTB-PE), que no deve conseguir a aproximao e o consenso to sonhados com o setor empresarial.

A presidente tambm pretendia colocar o senador Blairo Maggi (PR-MT)  frente da pasta de Transportes. No primeiro mandato, ele j havia sido cogitado e no fim do ano passado, o ministro Aloizio Mercadante recebeu a misso de sond-lo mais uma vez. Maggi repetiu que pretendia manter-se  frente do seu imprio econmico no agronegcio. Outro sonho de consumo de Dilma  a dona da gigante rede varejista Magazine Luiza, Luiza Trajano. No inicio de dezembro, ela se reuniu com a empresria e pediu que ela ajudasse na aproximao entre o governo e o empresariado. No dia 11 de dezembro, Luiza coordenou um encontro presidencial com cerca de 100 empresrias que formam o grupo Mulheres do Brasil.

No jantar, em clima descontrado, a presidente repetiu por duas vezes s empresrias que Luiza em breve seria integrante do seu governo e que, por escolha pessoal da empresria, ainda no estava na equipe. Referia-se ao convite, feito ainda em 2011, para que ela comandasse a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, que ainda seria criada. A vaga terminou ficando com Guilherme Afif, que este ano rejeitou a proposta de ser transferido para o Ministrio do Desenvolvimento para abrir espao para Luiza Trajano. Dilma ento decidiu mant-lo no cargo para evitar que deixasse o governo.

A carreira no setor privado e a possibilidade de sofrer um desgaste para tentar tirar as contas pblicas do atoleiro tambm fizeram Dilma receber uma negativa de Luiz Trabuco, presidente do conselho de administrao do Bradesco. Em conversa com a presidente Dilma Rousseff no Palcio da Alvorada em 19 de dezembro, Dilma afirmou que o queria no comando da economia para organizar as contas e acreditava que ele saberia como fazer sem causar danos  imagem do governo. Depois de ouvir elogios e tomar um copo de suco, Trabuco disse que estava focado no seu futuro dentro do Bradesco, mas que teria prazer em conversar e trocar ideias com a equipe econmica que ela escolhesse. Foi nesse cenrio de restries e alguns nos, que Dilma Rousseff seguiu montando at aqui um ministrio alvo de muitas crticas. Um dos conselheiros da presidente neste segundo mandato resume o cenrio: Esse foi o Ministrio possvel.


4#2 O PT NO DIV
Declaraes de Marta Suplicy jogam novamente o Partido dos Trabalhadores numa crise existencial e indicam uma provvel sada da ex-ministra da legenda, repetindo o caminho trilhado por outras estrelas petistas
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

O PT que chegou e se manteve no poder nos ltimos 12 anos est muito diferente daquele partido fundado em 1980 nos ideais e nas prticas polticas. Para alcanar o Palcio do Planalto, recorreu ao pragmatismo eleitoral que tanto combatia. Uma vez no poder, deixou as reformas de base e a bandeira da tica para trs, privilegiando os acordos e o vale-tudo das alianas. Colheu o mensalo e, mais recentemente, o Petrolo, escndalo de dimenses ainda maiores no seio da Petrobras, maior estatal do Pas. Como todo partido governista, o PT cresceu em nmero de militantes. As estrelas de outrora, no entanto, de tempos em tempos demonstram desiluso com os rumos da legenda e acabam por abandon-la. Na ltima semana, foi a vez de a ex-prefeita de So Paulo e ex-ministra Marta Suplicy jogar o PT no div e ensaiar uma desfiliao. Sinto que no tenho mais nada a ver com suas estruturas.  um partido cada vez mais isolado, que luta pela manuteno do poder.Ou o PT muda ou acaba, resumiu em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. As declaraes deixaram a cpula da sigla em polvorosa. A senadora narrou em detalhes a desorientao da sigla s vsperas de definir se Dilma Rousseff seria a candidata  reeleio ou se o PT lanaria o ex-presidente Luiz Incio Lula da Silva. Tachou o presidente da sigla, Rui Falco, de trara e referiu-se ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, como inimigo.

Alm do desencanto com o PT, Marta se orienta por uma lgica poltica. Quer ser candidata  prefeitura de So Paulo em 2016 

At novembro, como ministra da Cultura, Marta desfrutava das intimidades do governo e da Executiva do partido. Suas crticas, segundo alguns lderes do PT, so produto apenas de mgoa e de um projeto pessoal que no encontra ressonncia na legenda. Este foi o argumento dos petistas na tentativa de colocar panos quentes em uma crise at ento restrita aos bastidores. Alm do desencanto com o partido, Marta se orienta por uma lgica poltica. Com a escolha de Fernando Haddad para disputar a Prefeitura de So Paulo em 2012, a senadora viu o espao poltico que ajudou a construir ser ocupado. Agora, de olho nas eleies de 2016, ela quer alar voo solo. Provavelmente, filiada a outra legenda, j que Haddad deve ser o candidato do PT  reeleio.  esquerda, recebeu convite de todas as agremiaes. Entre elas, o PSB. Colegas de sigla, como o vice-presidente do PT, Alberto Cantalice, tentaram explicar a exploso de Marta. Ela est fazendo o jogo. Como pode alegar falta de espao se ela ocupou quase todos os cargos pelo PT? Na posse do ministro da Cultura, Juca Ferreira, os petistas tentaram demonstrar unidade. Das eleies para c, no entanto, Marta no foi a nica petista histrica a desfiar um rosrio de crticas ao PT. Cerraram fileiras o dominicano Frei Betto (leia entrevista nesta edio) e o ex-porta voz da Presidncia Andr Singer. Hoje, ambos se mostram decepcionados com as primeiras medidas do segundo governo Dilma. Em junho do ano passado, o ex-ministro Gilberto Carvalho afirmou que o PT precisava se abrir para um processo de autocrtica. O ex-ministro foi lembrado enquanto Marta acionava sua metralhadora giratria. J no primeiro dia, vimos um ministrio cujo critrio foi a excluso de todos que eram prximos do Lula. O Gilberto Carvalho  o mais bvio, afirmou, acusando a presidente de esvaziar a influncia de Lula no segundo mandato.

Caso deixe a legenda, Marta no ter sido a primeira estrela petista a abandonar a nau, decepcionada com seus descaminhos. Pouco a pouco, o PT foi perdendo referncias. Nomes como Fernando Gabeira, Helosa Helena, Cristovam Buarque e o jurista Hlio Bicudo abandonaram a legenda. Gabeira deixou os quadros da sigla decepcionado com a poltica de Meio Ambiente j no primeiro ano de mandato de Lula e Cristovam foi demitido do Ministrio da Educao por telefone. Em 2005, com o escndalo do mensalo, a sigla assistiu a uma debandada de desapontados. Alm de Bicudo, deram adeus  legenda os deputados Chico Alencar e Ivan Valente. Mais baixas atingiram a sigla em 2009, com a sada de Marina Silva. Dois anos depois, quando precisou escolher entre o ex-tesoureiro Delbio Soares e o militante histrico Vladimir Palmeira, a cpula preferiu manter o condenado do processo do mensalo a conservar sua memria. Palmeira foi embora. 


4#3 ELE ESTREMECE O PLANALTO
Ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerver  detido no Rio, depois de transferir imveis para os filhos e os procuradores suspeitarem de uma tentativa de fuga do Pas. O temor no governo  de que ele decida pela delao premiada
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

HOMEM-BOMBA - Na quinta-feira 15, Nestor Cerver, preso na madrugada do dia anterior no Rio, demonstrou que no pretende ficar em silncio

Personagem central do escndalo de corrupo na Petrobras, o ex-diretor da rea internacional da estatal Nestor Cerver sobreviveu dois meses inclume at ser preso, na quarta-feira 14, ao desembarcar no aeroporto Tom Jobim, no Rio de Janeiro, oriundo de Londres. O Ministrio Pblico Federal identificou nos passos de Cerver um comportamento de quem planejava uma fuga, a exemplo do que fez Henrique Pizzolato, o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil que fugiu para a Itlia e hoje est solto no pas europeu. Alm de tentar realizar uma operao de resgate de um fundo de Previdncia no valor de R$ 463 mil, transferindo-o para a conta de sua filha, o que lhe traria um prejuzo de R$ 100 mil, Cerver passou para o nome dos demais filhos trs apartamentos, todos em Ipanema, bairro de classe alta na zona sul do Rio de Janeiro. Os imveis, segundo a Polcia Federal, esto avaliados em R$ 7 milhes.

Mas no so essas operaes, responsveis pela priso de Cerver, que preocupam o PT e o governo. O ex-diretor da Petrobras  um arquivo vivo e detentor dos segredos mais ocultos da Petrobras. Talvez o principal deles , ao menos para o governo: a compra da refinaria de Pasadena, no Texas. Foi Cerver que redigiu o parecer que avalizou o negcio. A aquisio gerou um prejuzo de R$ 1,6 bilho  Petrobras. Na poca, Dilma era presidente do Conselho de Administrao da estatal. Antes de deixar o Pas, Cerver ameaou revelar toda a verdade sobre o negcio. Mas, procurado por emissrios do governo, selou um acordo para ficar calado. Em troca, a CPI no Congresso aliviaria para ele. O script foi seguido  risca. At a madrugada da quarta-feira 14, quando ele foi preso. Agora, o governo teme que ele seja mais um a celebrar um acordo de delao premiada com os investigadores da Lava Jato, assim como j fizeram o ex-diretor de abastecimento, Paulo Roberto Costa, e diretores de empreiteiras. Seria o pior dos mundos para o Palcio do Planalto. Na quinta-feira 15, Cerver deu demonstraes de que pretende fazer a delao. Em depoimento ao juiz Srgio Moro, nas dependncias da PF em Curitiba, o ex-diretor da rea internacional da Petrobras contou que o lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, atuava nas diretorias de abastecimento e de gs e energia da estatal. A diretoria de abastecimento foi comandada por Paulo Roberto Costa entre 2004 e 2012, e a diretoria de gs e energia foi ocupada por Ildo Sauer de 2003 a 2007, e pela atual presidente da companhia, Maria das Graas Foster, entre 2007 e 2012.

NO COLO DA ESTATAL - Para a UTC, de Ricardo Pessoa, se cartel houve, seu principal agente seria a Petrobras

Cerver relatou a dois delegados da PF em Curitiba que conheceu Baiano em 2000 e que o lobista continuou frequentando a Petrobras representando outras empresas, tendo se dirigido a outras diretorias, como a de abastecimento e a de gs e energia. O ex-diretor afirmou ainda aos delegados que Baiano indicou o empresrio Jlio Camargo, da Toyo Setal, para o fornecimento de navios-sonda para a Petrobras. Foi agendada uma reunio por volta de 2006 no gabinete da diretoria internacional no Rio de Janeiro, ocasio em que estavam presentes o declarante, Jlio Camargo, um diretor da Mitsui-Toyo, um diretor da Samsung, declarou. Mas foi a declarao dada para justificar a transferncia de imveis aos seus filhos que acendeu a luz amarela de alerta no governo. Ao responder a questionamento dos investigadores, Cerver mencionou a atual presidente da companhia, Graa Foster. Ela realizou operaes semelhantes, transferindo imveis aos filhos dela, afirmou. Para tentar justificar suas condutas, Cerver alegou estar passando por dificuldades financeiras.

 medida que a Justia aperta o cerco, os envolvidos no esquema rompem acordos e resolvem falar. Na ltima semana foi a vez de a UTC questionar a parcela de responsabilidade da Petrobras na rede de corrupo. Proibida de firmar novos contratos com a estatal, a empreiteira divulgou nota afirmando que a companhia seria uma lder, se a formao de cartel for comprovada. Se cartel houve, seu principal agente seria a Petrobras, sendo o suposto clube no mximo um instrumento das aes dela mesma, atacou a UTC, cujo principal acionista, Ricardo Pessoa, est preso desde o fim do ano passado, apontado como coordenador do cartel. A empresa alega que o processo de contratao de fornecedores e as regras das licitaes eram ditados pela companhia.


4#4 O LOTEAMENTO DE KTIA ABREU
Ignorando pedido da presidente Dilma, ministra da Agricultura indicou para compor sua equipe pessoas que respondem a aes na Justia e j provoca constrangimento no ministrio
Ludmilla Amaral (ludmilla@istoe.com.br)

COMEOU MAL - A ministra da Agricultura, Ktia Abreu, importou afilhados polticos da CNA e de Tocantins. Muitos dos quais com problemas na Justia

Ao compor o novo Ministrio, a presidente Dilma Rousseff transmitiu aos integrantes do primeiro escalo que o preenchimento dos cargos nas pastas deveria obedecer ao trip: fora poltica, capacidade de gesto e probidade administrativa. Para estarem aptos s vagas os indicados deveriam reunir preferencialmente essas caractersticas. No  isso, porm, o que vem ocorrendo no Ministrio da Agricultura. Alm de chegar ao ministrio sob as desconfianas do PT e de transform-lo numa espcie de Repblica da Confederao Nacional da Agricultura e Pecuria (CNA) e de Tocantins, a ministra Ktia Abreu tem indicado para comandar cargos estratgicos pessoas com problemas na Justia.

Para a Secretaria de Defesa Agropecuria, Ktia Abreu indicou Dcio Coutinho, atualmente assessor tcnico da CNA. Coutinho foi articulador da entidade na elaborao da Plataforma de Gesto Agropecuria  ferramenta criada para fazer a gesto operacional do setor agropecurio e reforar o controle sanitrio do rebanho bovino brasileiro. O problema  que Dcio Coutinho foi condenado, em outubro de 2013, pela Justia Estadual de Mato Grosso por improbidade administrativa. A ao, ajuizada pelo Ministrio Pblico do Estado de Mato Grosso, condenou Coutinho por irregularidades na execuo de um contrato firmado em 2003 entre a gesto do Instituto de Defesa Agropecuria do Estado (Indea) e a Agncia de Viagens Universal Ltda. O Ministrio Pblico considerou irregular a alterao do valor inicial do contrato, efetivao do pagamento  empresa sem a devida comprovao dos servios prestados e pagamento de quantia superior  estabelecida. Segundo os procuradores, as irregularidades resultaram num prejuzo de R$ 1,15 milho ao errio.

O novo subsecretrio de Planejamento, Oramento e Gesto do Ministrio da Agricultura, Luizevane Soares Mizurine,  ru num processo de busca e apreenso de um carro por inadimplncia. Ou seja, o novo responsvel pelo oramento da Agricultura responde a um processo por falta de pagamento. Seguindo a mesma toada de nomeaes de pessoas que respondem a processos na Justia, a ministra escolheu Ktia Rocha para assessor-la. Ela foi secretria de Estado da Cultura e presidente da Fundao Cultural de Tocantins quando o rgo foi questionado sobre o pagamento de polpudos cachs para duplas sertanejas fazerem shows no Tocantins. Alm disso, a ento secretria da Cultura foi denunciada ao MP por improbidade administrativa por ter dado calote em profissionais do curso de capacitao em gesto cultural em Palmas, em 2012. A denncia foi feita por Paulo Azevedo, que ministrou o curso. Ela cometeu vrias irregularidades, entre as quais abuso de poder e improbidade administrativa, pois a mesma exerce a funo de secretria de Estado e presidente da fundao, alm de formao de quadrilha, acusou na poca.

A ministra Ktia Abreu no se constrangeu em importar integrantes da CNA e de Tocantins para a Agricultura. Alm de Coutinho e Rocha, para a Secretaria de Relaes Internacionais do Agronegcio ela indicou a superintendente de Comrcio Exterior da CNA, Tatiana Palermo. O loteamento desenfreado j provoca constrangimentos aos funcionrios de carreira do Ministrio da Agricultura. Desde a tera-feira 6, cerca de dez assessores de Ktia vinculados  CNA tomam conta das dependncias da pasta, mesmo sem estarem oficializados no Dirio Oficial.


4#5 DEPUTADOS BLINDADOS
Temendo a divulgao da lista de denunciados no escndalo da Petrobras, parlamentares alteram regras no Conselho de tica com o intuito de proteg-los
Josie Jeronimo (josie@istoe.com.br)

VACINA - Processos s sero iniciados se houver prova material. Tambm ser aberta possibilidade de devoluo do dinheiro desviado

Preocupados com a divulgao da lista de parlamentares envolvidos no escndalo do Petrolo, em fevereiro, pela Procuradoria-Geral da Repblica, os deputados j buscam maneiras de se blindarem contra possveis denncias. Integrantes do Conselho de tica da Casa confeccionaram uma minuta que altera regras do colegiado, com o objetivo de beneficiar parlamentares acusados de desvios de recursos pblicos. Segundo o documento, ao qual ISTO teve acesso, a ideia  criar um acordo de lenincia parlamentar segundo o qual o deputado acusado de lesar os cofres pblicos poder apresentar  Mesa da Cmara proposta de devolver o dinheiro desviado. Dessa forma, abriria uma porta para a absolvio pelos colegas. A proposta de ressarcimento dever ser apresentada pelo Conselho de tica  Mesa, no caso de comprovao do uso indevido pelo representado de recursos pblicos ou de recebimento de vantagens indevidas, descreve a minuta. O documento diz ainda que os processos contra parlamentares s sero iniciados no Conselho de tica em caso de denncias com provas materiais.

Desde o fim de 2014, aes para proteger os parlamentares esto em curso. No final de dezembro, passou a tramitar na Mesa Diretora da Cmara um projeto de resoluo, assinado pelo deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que cria uma espcie de lei de acesso  informao s avessas exclusiva para os deputados. O texto impe punies a parlamentares e servidores que vazarem informaes comprometedoras e cria um grupo permanente para cuidar do sigilo de dados analisados na Casa. Com relao ao depoente e ao denunciante, no so raros os casos em que as informaes por eles prestadas, perante uma CPI, por exemplo, so to comprometedoras a ponto de, passado o prazo do sigilo decorrente de eventual classificao, remanescer o risco a sua vida ou integridade, justifica. A resoluo que reprime a divulgao de informaes sobre a vida privada, a honra e a imagem de deputado prev severas punies contra servidores e parlamentares que difundirem dados. No Congresso, a resoluo foi apelidada de lei da mordaa.


4#6 TRINTA ANOS DEPOIS DE TANCREDO
"A verdadeira poltica serve aos interesses do Pas e se constitui em eficiente instrumento de transformao da realidade"
Acio Neves

DIA HISTRICO - Em 15 de janeiro de 1985, observado pelo neto Acio Neves,Tancredo recebe o abrao de Jos Sarney, depois de proclamado presidente pelo Colgio Eleitoral

H 30 anos, o Brasil virava a mais importante pgina da sua histria poltica contempornea, reencontrando-se com a to buscada democracia. O marco  o j distante ano de 1985, quando foi escolhido para o comando do Pas o primeiro presidente civil e de oposio aps a longa noite de duas dcadas de regime de exceo imposto pelo golpe militar de 64.

Tancredo chegou  Presidncia atravs do Colgio Eleitoral, a nica via possvel naquele momento e que representava o caminho mais curto e seguro para a restaurao das liberdades no Pas. Construtor de pontes em sua essncia, ele guardava clara conscincia do enorme passo que o Brasil finalmente poderia dar. A derrota das Diretas no Congresso Nacional havia frustrado milhes de ns, mas no paralisou as grandes lideranas com que o Pas pde contar naquele difcil trecho da histria. Surpreendendo aqueles que acreditavam que a derrota da Emenda Dante de Oliveira significaria tambm o fim do sonho e a derrota do povo brasileiro, grandes lderes polticos, munidos de um profundo amor pelo Brasil, continuaram perseverantes na jornada de conduzir o Pas  democracia. E se prepararam para vencer a luta no campo, e com as regras ditadas pelo adversrio, no caso o Colgio Eleitoral. 

Hoje, adensa-se a percepo de que nunca houve tanta convergncia no Brasil como naquela hora histrica. Isso, apesar de o PT, que se recusou a votar em Tancredo, chegando a expulsar  trs parlamentares  que, entre os interesses do Brasil e os do partido, escolheram  caminhar ao lado dos brasileiros e deram seus votos ao mineiro. Com unidade  poltica construda em torno do essencial, os lderes de ento cumpriram o seu dever e nos legaram a grande lio: a verdadeira poltica serve aos interesses do Pas e se constitui em eficiente  instrumento de transformao da realidade. Para isso, exige de cada um de ns desprendimento para que sejamos capazes de construir os consensos por onde importantes conquistas possam avanar. 

Quem caminhou ao lado de Tancredo, aps a sua escolha, se lembra do clamor popular das ruas e da grande esperana que tomou conta dos brasileiros. No h ptria onde falta democracia, disse Tancredo, no grande discurso histrico, logo aps a vitria. No sem antes deixar uma preciosa advertncia a cada um de ns: A ptria no  o passado, mas o futuro que construmos com o presente. No  a aposentadoria dos heris, mas tarefa a cumprir;  a promoo da justia, e a justia se promove com liberdade. Na vida das naes, todos os dias so dias de histria, e todos os dias so difceis, preconizou.

Trinta anos depois, ainda somos essa nao em tudo promissora, mas ainda em busca de seu futuro. Avanamos, no h dvida, mas resta intocada uma imensa dvida social do Brasil com milhes de brasileiros. Movido pela memria viva daquele tempo, revisito o compromisso repetido  exausto por Tancredo: Enquanto houver, neste Pas, um s homem sem trabalho, sem po, sem teto e sem letras, toda prosperidade ser falsa. Esse continua sendo o nosso desafio. Esse continua sendo o nosso compromisso.

O senador Acio Neves, ex-governador de Minas Gerais e presidente nacional do PSDB,  neto de Tancredo Neves


4#7 FRATURA EXPOSTA
Os mais de 500 mil estudantes que zeraram em redao no Enem 2014 mostram a situao precria da educao bsica no Pas 
Raul Montenegro (raul.montenegro@istoe.com.br)

Dois meses depois de mais de seis milhes de alunos prestarem o Exame Nacional do Ensino Mdio (Enem), o ministro da Educao, Cid Gomes, divulgou, na quarta-feira 14, o balano final da edio 2014 da prova  e os resultados so alarmantes. Chama a ateno o pssimo desempenho dos candidatos nas reas mais fundamentais do conhecimento. Alm da piora em matemtica, a quantidade de inscritos que zeraram a redao explodiu. Exatamente 529.374 estudantes registraram a nota mnima na parte escrita do teste, quase o quntuplo dos 106 mil do ano anterior. Na outra ponta, apenas 250 pessoas receberam a nota mxima (em 2013, foram 481). Os nmeros revelam a baixa qualidade do ensino brasileiro, principalmente no nvel mdio, e apontam para a necessidade de investimentos e mudanas nas diretrizes da rea.

Nesta edio, metade zerou a redao porque deixou a folha em branco. Outros 217 mil tiveram seus textos anulados porque fugiram ao tema proposto, publicidade infantil. No total, 8,5% dos candidatos tiraram a nota mnima na parte escrita da prova. Na mdia, os inscritos no fizeram nem metade dos mil pontos possveis, uma piora de 9,7% em relao ao Enem de 2013. Professor da Faculdade de Educao da USP, Nilson Jos Machado afirma que os maus resultados que o Brasil normalmente alcana em avaliaes do gnero revelam o estado vergonhoso do ensino bsico. Cada vez que  divulgado um exame como esse h uma chuva de interpretaes e depois no se faz mais nada. A avaliao tem a ver com planejamento, mas no h projeto para o setor no Pas, diz.

No Enem e em outros exames, preocupa a sangria em duas das reas mais fundamentais do aprendizado: a redao e a matemtica. Nesta ltima, a mdia em relao ao ano anterior desabou 7,3%. Melhoraram as reas de humanas, cincias da natureza e linguagens. Ao todo, no entanto, o rendimento caiu de 504,3 para 499 pontos (-1%). O Enem, hoje, serve mais como mtodo de entrada na universidade do que como ferramenta para mensurar a qualidade da educao nacional. Mesmo assim, espera-se que o rendimento dos alunos suba, ao invs de cair. Para melhorar o quadro nas salas de aula, Machado receita a valorizao dos professores e a criao urgente de uma base curricular nacional.  preciso oferecer uma carreira, com concursos atraentes para aumentar a competncia tcnica, como ocorre no Judicirio. E o currculo tem matrias demais. Perdeu-se a noo do que  fundamental, afirma.

